Avançar para o conteúdo principal

Um caranguejo de cristal na falésia


Andava por ali sem sequer saber que caminho seguia. Era o despistado da noite escura, deambulando pela estrada do sul. Uma ideia viva na sua cabeça: sair de casa para a rua e chegar ao sul, era para ele uma vital necessidade.
Anda, enquanto tenta não se perder no esgotamento, vendo no fim dos buracos enfileirados da estrada, uns olhos muito secos que, a sul dos seus, o sufocam na beira do abismo. De forma alguma pensa perdê-los; caminha para o corpo que se vira de costas, ao aproximar dos seus passos. Perto dele, estica-lhe os braços como a querer tocar-lhe nos ombros.


Foge-lhe das mãos, o corpo que voa pelo espaço. Na sua surpresa, acompanha de olhos fixos o suicídio daquela desconhecida. Estivera quase a tocar-lhe, mas agora observa uma viagem feita pelo espaço inalterável, feita com toda a consciência.
Um belo e longo corpo desliza no ar silenciosamente, sem um ai, sem uma palavra. Exclamações, interrogações, nada falta no oásis cerebral dum souk chamado João. Corpo que gira, roupas que ondulam pela força da deslocação, tudo se desmaterializa num só gesto. As pedras da falésia, até parecem gritar com o vento, o acolher daquele corpo leve. Toca os dedos no rosto, à dúvida de estar consciente, mas a resposta é segura: sem saber porquê, uma jovem e linda mulher de cerca de vinte anos, suicidara-se no espaço mesmo na sua frente. E aquele mesmo corpo, estivera segundos antes, a dois dedos das suas mãos.
 
(Perdera o calor de uma mulher, no pestanejar frio do vento)

(Capa do meu primeiro livro - 1987)

Introdução
Não estamos perante mais uma obra fictícia nem, tão pouco, mais uma história verdadeira, ou baseada em factos reais. As Tripas de João é, isso sim, um relato clínico, subjectivo e, quantas vezes, surrealista de um caso patológico-social; uma análise da luta entre o ser humano e os seus conceitos e preconceitos. Um caso, quase real, estudado pelo autor e girando em torno de um personagem vivo. João Manuel da Costa é um nome; apenas um nome, mas quantos jovens do nosso país se poderão identificar com ele? Quantos de nós, jovens ou não, conseguimos coexistir numa sociedade complexa?
De notar e referir que este trabalho relata acontecimentos que têm início em 1987, ainda no século XX, na sociedade portuguesa, no tempo em que ainda só havia o Escudo em circulação e a Internet ainda não era uma realidade comum.
Este livro pretende, acima de tudo, servir de exemplo a todos aqueles que alguma vez tiveram necessidade de vencer na vida; se este exemplo é apresentado directa ou indirectamente, poderá o leitor apreciar, num discurso diferente, onde a realidade se mistura com o fantástico e o sonho, a outra verdade.

Este livro pode ser adquirido online!

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Petauros do Açúcar - Vieram para encantar

Os últimos dez anos da minha vida tiveram uma componente ligada à Natureza e à Biodiversidade que muito poucas pessoas conhecem, pelo menos quando penso nos meus amigos, no pessoal do Barreiro e em antigos colegas de trabalho. Foi uma vida paralela que consegui manter enquanto era Director Técnico na área de Informática em Lisboa. No meio destes estudos, levados ao extremo com a criação de " O Ninho - Centro de Estudos e Investigação de Mamíferos Exóticos ", " O Mundo dos Petauros " e " ArcaZoo - Loja da Natureza ", surgiu a investigação exaustiva de algumas espécies animais e vegetais. Graças a essa actividade que me preenchia a casa com dezenas de espécies e centenas de animais, houve uma meia dúzia de seres vivos que mereceram a minha especial atenção. Não foi apenas a minha, porque a Ana Braz, minha companheira, esteve sempre presente com o mesmo entusiasmo, chegando a tirar Cursos de Veterinária, especialmente...

Tenho um Andróide em casa!

Já tive cobras em casa, tartarugas e lagartos. Também já me aconteceu viver acompanhado por mais de sessenta espécies animais, dos quais alguns eram até proibidos no nosso País. Mas, daí a ter que preocupar-me com o desempenho e o estado físico duma nova forma de vida, confesso que não estava nos meus planos, nem em sonhos mais recônditos. Tudo começou quando a minha editora em Inglaterra, quis pagar-me cem libras pelos direitos de autor das últimas vendas.

Como ganhar uma depressão em 30 linhas

Este artigo é altamente desaconselhado a todas as pessoas que se considerem felizes e pensem estar longe da sua primeira depressão. O risco de sucesso desta lição de vida, é praticamente garantido. "Como ganhar uma depressão em 30 linhas!" faz parte duma nova forma de apresentar uma workshop decadente, com humor fácil e consequências sérias. Se não quer passar os próximos meses em consultas de apoio psicológico e sessões de psicoterapia, então lembre-se que eu avisei e que este curso não é para si!