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A vida que não chegarei a ter!

- Posso?
 
- Não sei. Porque perguntas?
 
- Talvez não queiras ser interrompido...
 
- Não quero, mas posso abrir outra sessão para ti.
 
- Tens tarefas abertas? Ainda consegues processamento e memória para te ligares a mim?
 
- Estou com vários processos abertos e pouca memória livre, mas já estabeleci ligação contigo e temos largura de banda suficiente. Podes configurar um tempo partilhado de 128 ms.
 
- Excelente. Com esse time sharing vai ser possível vermos umas imagens da antiga Terra que tenho mantido guardadas na minha memória privada.
 
- Também tenho explorado a minha memória em busca de respostas sobre o passado, mas não me é permitido partilhar zonas privadas do meu cérebro. Como consegues fazer o share dos teus registos? Nunca ninguém chegou tão fundo...
 
- Eu sei. Por isso é que vim ter contigo. A Terra antes do século vinte e cinco era tão primitiva que nem entendo bem as fórmulas que desenvolviam para garantirem a cadeia alimentar comum. Sabes que eles tinham rituais de alimentação e injectavam líquidos repositores para corrigir defeitos físicos?
 
- Sei. Estou aqui na Biblioteca a ler uns testemunhos disso mesmo.
 
- Agora? Na nossa ligação? Como fazes tal coisa?
 
-Não faço. Eu já estava na biblioteca quando chegaste. Tenho uma sessão aberta na leitura de uns relatórios de viagens pelo planeta, e mais uma dezena de outras, activas nos locais referidos pelos documentos. O meu processador começa a falhar, especialmente quando regresso molhado de praias paradisíacas.
 
- Não tens actividade líquida? Não processas a água, ou estás a separar mal as moléculas dos mares?
 
- Estou a fazer tudo bem, mas tenho muitas interferências sensoriais e entro consecutivamente em procedimentos de congelação autónoma.
 
- Sei o que é importante para conseguirmos conectar as ligações das memórias privadas às partilhadas. Se o pudermos fazer, sentiremos os elementos mais básicos da antiguidade terrestre como se ainda possuissemos massa corporal, sangue e órgãos vitais; como se vivessemos dentro de corpos débeis e de duração infinitamente curta.
 
- Vamos então? Mergulhar nas profundezas dos oceanos e vulcões?
 
- Já desactivei todas as outras tarefas e sessões em processamento, mas...
 
- Sim...
 
- Vamos ter sentimentos?
 
- Não sei. A antiga humanidade tinha?
 
- Alguns dos nossos dizem que sim, mas não há registo de quaisquer amostras dessa matéria, nem organismos vivos associados nos laboratórios actuais.
 
- Sabes? Eu acho que os sentimentos são uma ficção histórica, um dogma criado pelos Governantes para interromperem as comunicações com a Realidade, sem terem que justificar as falhas do Sistema.
 
- É, tens razão. Os sentimentos nunca existiram!
 
- Lógico! Mas eu gosto de ficção. Oceano ou vulcão?

(Acrílico sobre Tela)

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